24 de setembro de 2010

Século XXI

Raul Seixas

Composição: Raul Seixas e Marcelo Nova

Há muitos anos você anda em círculos
Já não lembra de onde foi que partiu
Tantos desejos soprados pelo vento
Se espatifaram quando o vento sumiu

Você vendeu sua alma ao acaso
Que por descaso tava ali de bobeira
E em troca recebeu os pedaços
Cacos de vida de uma vida inteira

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

Você cruzou todas as fronteiras
Não soube mais de que lado ficou
E ainda tenta e ainda procura
Por um tempo que faz tempo passou

Agora é noite na sua existência
Cuja essência perdeu o lugar
Talvez esteja aí pelos cantos
Mas está escuro pra poder encontrar

Se você correu, correu, correu tanto
E não chegou a lugar nenhum
Baby oh Baby bem vinda ao Século XXI

23 de dezembro de 2009

The answer is blowin' in the wind


Por quanto tempo mais conseguirei segurar as lágrimas da decepção? Quanto tempo levará para entender que o sonho que levava em minhas mãos se espatifou como um frágil cristal? Quantas frases de consolo receberei? Essas serão poucas, pois, o mundo não se lembra dos derrotados, somente enaltece os vencedores.

Bajuladores detentores de milhares de livros de elogios não compreendem o quão vão são suas tolas idéias. Sentado na sombra observo a festa dos campeões. Do murmúrio de excitação sobem vivas de "eu já sabia" e "você se esforçou, mereceu". Então me indago: E eu também não me esforcei? Eu não merecia?

Merecimento? O mundo nunca foi justo. Para cada um que vence quantos ficam no caminho? Eles não se esforçaram? Não mereceram? A vida é injusta e nos quer tão justos. É tão hipócrita e nos pede para sermos verdadeiros. Será esse o mundo maravilhoso que tanto querem que acreditemos? Sou cético, não acredito no que me dizem.

Por que só depois de perder alguém as pessoas percebem o quão importante era esse alguém? Por que só depois de experimentarem a saudade irreparável percebem o quão amorosa era aquela presença? Por que sou tão sozinho em um mundo tão promíscuo? Talvez porque não seja deste mundo.

Quando voltarei para o meu lugar? Quando alguém vai me entender? Quando alguém me dirá um simples eu te amo, em um momento improvável? Quando alguém se lembrará de mim? E dirá: "Isto ele vai gostar, vou mostrar a ele". Quando alguém me abraçará apertado, no momento que estiver distraído, me olhará fundo nos olhos e dirá: "Sem você não consigo viver?" Sonhos, vãos sonhos de um sonhador utópico.

Levanto, a festa acabou, todos se foram. Piso em restos de tinta e papéis picados. O céu escuro prenuncia uma tempestade. Sinto os primeiros pingos gelados caírem ao mesmo tempo que as lágrimas começam a rolar pela minha face. Um trovão abafa um soluço mais forte. A chuva me revela que não sou nada, nunca serei. Na vitrine de uma loja fito minha imagem, esquálida imagem de um derrotado. Um derrotado que sabe que a vida nunca irá lhe oferecer aquilo que deseja. Até quando irá pedir? Alguém me ouvirá? Por que que eu faço essas perguntas sem ninguém pra respondê-las?

17 de dezembro de 2009

Areia da ampulheta


A longa ampulheta do tempo continua a derramar sua branca areia. Daqui a pouco ela tornará a girar e dará início a mais um ciclo. E o eterno ciclo dos anos continuará a cavalgar no espaço infinito do nada.

O calor de hoje me sufoca. Absolutamente nada para fazer. As folhas das árvores não se movem. Até o vento se escondeu. O tempo parece parado. As horas teimam em passar.

Tanto por dizer, mas ninguém disposto a ouvir. Tantos carinhos por oferecer, mas ninguém disposto a recebê-los. A saudade que me invade nesta época não sei de onde surgiu. Talvez lembranças de outra vida, de alguém, de um sonho, não sei.

A televisão a minha frente noticia o caos da nossa época. Vamos nos destruir. Dominamos a Lua e perdemos o controle do nosso planeta, ou melhor, destruímos nosso planeta. Será que alguém realmente acredita na salvação? Eu não acredito mais.

Ambições humanas agora cobram seu preço. Gaia é vingativa, não esquece de quem a subestimou.

A ausência do vento será um sinal? O calor que me sufoca será um aviso? Só o que sei é que a areia da ampulheta continua a cair. Ela continuará a girar eternamente. Um ciclo precede o outro. Será minha saudade lembrança de quando éramos bons?

Cavalos calados


Domingo sempre foi o pior dia e sempre será. Absolutamente nada para fazer. O mundo repousa, a vida pára, o vento não sopra, até a natureza parece adormecida em um hipnótico sonho de tédio. O ar pesado, que a todos envolve, parece transmitir as energias negativas de tal dia. Estatisticamente, domingo é o dia aonde mais ocorrem suicídios.

Ando, pelas ruas, na companhia de meus fantasmas. Ninguém repara naquele que passa por ali, estão todos ocupados, todos sem tempo, como aqueles que assistem ao jogo ali no bar, torcendo, chorando, por ídolos que jamais torcerão por eles, nem tampouco irão derramar alguma lágrima pelos anônimos que os ovacionam. Ou então, sem tempo, como os que festejam na casa logo a frente, entre gritos e risos a felicidade transborda de seus copos.

Como gostaria de ser como eles, como desejaria amar a vida, como queria ser apenas comum. Respiro fundo para tentar aspirar um pouco da alegria dos que festejam, mas é inútil. Continuo minha caminhada. Sim, talvez seja assim, o caminho que devo seguir os outros não possam enxergar. Idiota seria a palavra certa para me descrever, pois cobro das pessoas aquilo que para elas não existe. Apenas eu posso observar este caminho, apenas eu devo trilhá-lo, sem ninguém.

Algumas vezes abandono o meu caminho para ajudar no caminho alheio, mesmo quando fatigado de minha própria estrada, percorro estradas alheias acudindo quem precisa com gestos simples que apenas gostaria de receber de volta sem necessitar pedir. Mas, quando preciso, estão todos ocupados, sem tempo para mim. Tudo bem, respondo com um sorriso amarelo, eu entendo.

Será que algum dia alguém verá que também necessito de ajuda? Verá minhas feridas e ajudará no curativo? Entenderá que minha ajuda é apenas um mudo pedido de socorro? Ou então desejam que seja mais claro? Se for isso tudo bem. Eu preciso de ajuda. Mas meu pedido é sufocado pelos gritos de gol daqueles ali no bar e pelos risos da festa logo a frente. De que adianta clamar por ajuda? Ninguém percebe que necessito de uma.

20 de novembro de 2009

Texto sem título


Alguém me ajude a procurar minha felicidade, não a encontro em lugar algum. Não recordo onde a esqueci, ou melhor, não recordo se algum dia cheguei a possuí-la. A vida nunca me provocou grandes paixões por ela, pelo contrário, vivemos uma relação forçada, imposta por uma força superior a mim.

Nesses dias cinzentos em que pairo sobre o mundo dos vivos e os observo sob um olhar de alguém que nunca os compreendeu, tudo o que desejo é paz. Vá embora maldita dor, preencha meu vazio com algo, ainda que fútil e tolo, mas eu lhe imploro, não quero mais isso.

Quero chorar, mas não consigo. Desejo gritar, mas minha voz se cala frente aos gritos de felicidade do mundo. Queria alguém em cujos ombros pudesse descansar minha cabeça. Aparento ser forte, mas sou frágil. Minha fortaleza é apenas a máscara com a qual escondo minhas frustrações.

Gostaria de alguém que me entendesse. Mas isso é pedir muito. Estou cansado do mundo, da vida, das pessoas falsas, das banalidades, de mim. Sou um idiota e idiotas merecem sofrer. Merecem sofrer por desejarem a paz em meio a guerra, por amarem demais, por sonharem enquanto todos estão acordados.

Só queria não existir, não ser nada. Não faria falta ao mundo. O universo não alteraria seu curso por um sonhador não existir. As pessoas continuariam suas pacatas vidas. Talvez apenas a Lua, solitária e vazia assim como eu, sentiria a falta de um par de olhos que sempre a observava. Talvez nessa noite a Lua se esconderia, atrás das nuvens, para derramar seu pranto solitário e lamentar a perda de um sonhador.

Mas no pranto da Lua, não haveria apenas lamento, haveria também uma cumplicidade, pois no fundo, a Lua compreenderia o sentimento daquele jovem que naquele momento dormia, dormia, talvez sonhava.

16 de novembro de 2009

RIP


O que é a morte? Para os cientistas o cessar de toda e qualquer atividade biológica. Para os religiosos apenas uma passagem. Mas, sempre me pergunto, qual o limiar entre esse dois mundos? Que tênue fio separa universos tão desconhecidos? A morte me fascina. Me faz ver o quão insignificante sou. O quão frágil é a minha existência.

O que acontece no exato momento em que sua consciência se apaga? Dor? Paz? Um ínfimo instante e um universo se apaga. Uma vida inteira construída é derrubada de um só golpe pela foice gélida da senhora morte. Sonhos, desejos, planos para o amanhã, são sumariamente apagados, porque o amanhã já não mais irá acontecer. Tudo se acabou quando menos esperávamos.

Se me fosse permitido escolher a forma de minha morte, desejaria estar acordado, lúcido para sentí-la melhor. Para alguns uma idéia um tanto quanto macabra, não para mim. Gostaria de sentir ela se aproximando a passos lentos, ela estendendo seus braços e me envolvendo num abraço acolhedor, como uma mãe que encontra seu filho desaparecido.

E depois? O mistério. Será nossa segunda chance? Ou apenas o nada absoluto? Incertezas que descobriremos quando chegar a nossa vez. Talvez logo após terminar este texto. Talvez amanhã. Talvez no próximo ano. Talvez daqui há 70 anos. Ninguém sabe quando ela nos fará sua visita íntima.

A única certeza que temos neste mundo é a de que quando a vida da última pessoa, que se lembrar de nós, se apagar, será como se jamais tivéssemos aqui vivido. E só então, neste dia, a nossa morte se concluirá.

28 de outubro de 2009

SPD


Viver dói. Cada dia a vida me afoga, me lança para as profundezas de suas águas, tenta me vencer. Até agora resisto, mas me pergunto até quando terei forças para retornar a superfície em busca de ar? Não sei. Alguém, muito importante para mim, afirmou que devíamos ter sido avisados na infância, que a vida não é a maravilha que sonhamos. Eu concordo com ela.

A vida sempre tenta acabar com nossos sonhos, devemos resistir, ficar firmes em nosso propósito, ainda que o caminho seja longo, duro e solitário. As vezes, quando na escuridão da estrada choramos por termos perdido o caminho, quando todos os que ajudamos tomaram a dianteira e nos deixaram para trás, quando nos descobrimos sozinhos, nesse instante, sempre haverá alguém com uma lanterna que nos encontrará e nos levantará estendendo uma mão amiga.

Não pense que a pessoa que segura a lanterna também não está com medo, ela está na mesma situação que a sua. Talvez você sozinho não sobreviva aos perigos da estrada mas tendo alguém ao seu lado a história pode ser diferente.

Eu sei que você que me ajuda a levantar não é a minha salvação. Você é a minha auxiliadora. Me ajudou quando todos me negaram ajuda. Talvez os nossos caminhos se separem mais a frente mas, mesmo que novamente tenha que trilhar o caminho solitário, guardarei para sempre em minha memória, a luz da sua lanterna, o brilho do seu sorriso, a pureza do seu coração, o sabor de seus lindos lábios e a imensa alegria por estar em sua companhia.

Talvez para você eu seja apenas mais um qualquer mas, saiba que para mim você é única. A maior proximidade da perfeição que possa existir. Devido a isso, o que eu desejo verdadeiramente neste instante é gritar o mais alto possível para todos ouvirem: "Obrigado SPD, estou começando a lhe amar."