14 de setembro de 2009

Vagos pensamentos


O quarto estava vazio. Apenas ele e seus pensamentos compartilhavam a triste monotonia de mais um dia neste planeta. Respirou fundo tentando puxar para dentro de si não apenas o ar vital que lhe faria sobreviver por mais tempo mas, também, buscava aspirar a vida que perdera em algum dia do passado. Mas ele sabia que isso era inútil, jamais voltaria a ser quem fora, ele até era feliz, mas agora tudo se acabou.

Observando a foto de uma criança, sorrindo feliz, em cima da mesa da sala ele se reconhece no momento extático da eternidade fotografada. Mais uma respirada funda e o vazio que não é preenchido perdura. Lágrimas escorrem pelo seu rosto, ninguém entende. Está só. Só como a Lua cheia que observa de sua janela. A vastidão do universo e a solidão da Lua por um momento lhe confortam. Em uma prece silenciosa apenas pede para que Deus abrande seu sofrimento. Ele grita mas ninguém lhe ouve, ninguém. Novamente se refugia em sua fortaleza solitária, ali convive com a solidão, as horas amargas de todos os dias monótonos que teimam em passar. As lágrimas escorrem novamente por seu rosto. É apenas mais um entre bilhões mas não gostaria de ser nenhum.

12 de setembro de 2009

Relato de um vampiro - Parte II


A loucura é só um ponto de vista. Todos são loucos. Alguns conscientes de sua loucura. São aqueles que conseguem abandonar a caverna, aqueles a quem a luz da existência os cega e a solidão, que acomete todas as almas que deixam a caverna, se torna uma companheira inseparável. Em vão tentam conseguir o apoio dos cegos que permanecem na caverna cegados pelas sombras.

Nesses dias em que a solidão é a minha única companheira, a minha amiga, a minha esposa casta, desejo me transportar para outros mundos, alegres, divertidos, eternos. Porém, isso seria desistir daquilo que lutei tanto para conseguir. Desistir da luz. E desistir é para os fracos. Não lutar é para os fracos. Eu sou forte. Eu sou vencedor.

Apesar da solidão do mundo real eu gosto dela, me faz sentir vivo, pois quem vive rodeado de companheiros e companheiras está na caverna, e quem está na caverna, está morto no mundo real e vivo no mundo virtual.

Devido a isso, grito aos quatro ventos e em eco eles me devolvem o grito: Prefiro a dor da existência à felicidade da idiotice e da estupidez humana.

Relato de um vampiro - Parte I


Mais um dia como os outros. As vezes tenho a sensação de estar constantemente experimentando o eterno retorno proposto pelo filósofo Nietzsche. Tudo se repete, da minha janela observo os seres humanos, sempre iguais, ignorantes, imaginando que vivem.

Viver. Nem sei se estou vivo, tudo pode ser um sonho, um pesadelo na verdade. Sou um vampiro, estou entre a vida e a morte. Não estou morrendo, não é isso que quis dizer. O problema é que ao mesmo tempo que vivo já estou morto há muito tempo.

Nem sei precisar quando foi, mas faz muito tempo, lembro que era um jovem curioso e isso me levou até os vampiros, mas o que aconteceu depois ninguém nunca soube explicar, até hoje não entendo. Já pesquisei muito, mas não encontrei a resposta.

Eu me transformei em um vampiro diferente, não necessito de sangue para viver, me alimento de almas humanas. Nunca matei os seres humanos de que me alimentei, apenas os deixo com uma angústia, uma tristeza, isso acontece porque quando me alimento os meus sentimentos passam para a pessoa e os sentimentos de alegria da pessoa passam para mim.

Assim vivo, da felicidade dos humanos. Sou triste, melancólico e solitário. Passo os dias lendo e ouvindo música, lembrando do que passou e vivi, sonhando com um lugar melhor. Estou cansado de tudo, de todos, por isso vivo só. Além disso, sou o único da minha espécie, ou não, pois já fui um humano e me transformei nisso. Também não encontrei ninguém como eu, nenhuma vampira para dividir as angústias que a eternidade proporciona.

Estudo e observo muito os seres humanos, como já fui um, posso dizer de algumas coisas que senti, outras que aprendi após deixar a forma humana, mas nem por isso deixam de ser verdadeiras.

Os seres humanos são estúpidos, se preocupam com coisas poucas. Vivem sem pensar, ou melhor, vegetam, pensam viver. Percorrem todos os dias o mesmo caminho, realizam as mesmas tarefas. Para quê isso? No fim perderão a batalha da vida. Que coisa inútil.

Como sou idiota. Por que fico pensando nesses imbecis se tenho a eternidade para aprender e ler o mundo? Pode ser porque em algum lugar ainda possuo um pequeno traço da estupidez humana, como uma lembrança, uma fotografia para jamais ser esquecida.

10 de setembro de 2009

DEIXAI TODA ESPERANÇA, VÓS QUE ENTRAIS!




Deixai toda a esperança. Sim, essa parece ser a frase que a vida nos impõe desde nosso nascimento. Porém, diferente da Divina Comédia, a vida não é apenas um passeio no inferno, ou é? Sinceramente já não tenho tanta certeza. Talvez aqui neste mísero e insignificante planeta chamado Terra, que orbita uma estrela de quinta grandeza na periferia de uma das inúmeras galáxias deste vasto e imensurável espaço, seja o Inferno.
Basta apenas observarmos as notícias em jornais e revistas. Mortes. Assassinos. Estupradores. Mas isso sempre existiu e sempre existirá, afirmam os mais céticos quanto a grandiosidade do caos em que vivemos. Sim, realmente sempre existiu e sempre existirá, por isso, afirmo: aqui é o inferno.
"O inferno são os outros", afirmou Sartre. Não, o inferno é o planeta Terra. Os outros, ou nós, somos os demônios que cada dia destruimos o planeta numa velocidade que não é possível controlar. Ou alguém ainda acredita que podemos salvar a humanidade das catástrofes naturais? Não, o planeta não tem mais salvação. As pessoas não tem mais salvação. Bom, pelo menos não nesse tempo e espaço mas, isso é outra história que em breve comentarei.
No Inferno não há esperança, apenas dor e sofrimento. Schoppenhauer afirma que viver é sofrer porque nos decepcionamos com os desejos não realizados. Mas quais são nossos desejos? Será que as pessoas desejam realmente um futuro melhor para todos os semelhantes? Penso que não.
O mundo é mal é nós também somos. O amor é uma falácia e a esperança uma frágil donzela no meio da guerra fácil de ser abatida com um tiro. Parem o mundo que ,assim como um chato que me grita nos ouvidos, eu quero descer.